Uma risada sem fim


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Abri a geladeira. Vazia. A única coisa comível era uma maçã que já estava até murcha. Na última prateleira da porta tinha uma garrafa de vinho que havia aberto há uns dois meses. Preciso fazer compras, falei comigo mesma. Aliás, essa era minha maior mania; falar sozinha. Mordi a fruta enquanto pegava o vinho e fechava a geladeira com a perna.

Fui até o armário e peguei o primeiro copo que estava disponível. Era um daqueles que quando o requeijão acaba a gente lava e utiliza pra tudo. Enchi. Bebi um gole e senti o gosto do álcool, um pouco mais acentuado depois de ter o sabor da maçã na saliva. Fui até a sacada. Eu estava descalça e ainda assim meus passos pareciam fazer mais barulho do que o normal.

O apartamento estava em silêncio, mas sei lá, eu estava inquieta. Pensava em muitas coisas, mas ao mesmo tempo em nada.

Nas últimas semanas tenho tentado me reinventar de todas as maneiras. Sem sucesso. A corrida durante as manhãs tem me deixado mais disposta para o trabalho. Tenho tido bons resultados no escritório. No entanto, todas às vezes que chego em casa a sensação é a mesma.

Eu to perdendo alguma coisa, pensei.

Olhei para o movimento da avenida lá de cima. A cidade inteira parecia estar alinhada em seu devido lugar. Menos eu. Bebi o último gole do vinho. Deixei metade da maça na mesa e desci. Do décimo quinto andar até o térreo pareceu um século.

Andei sem direção por algumas horas. Por fim, acabei entrando num dessas cafés bonitinhos que tem pela cidade e que cobram um valor dobrado por uma bebida quente. No entanto, precisava aquecer meu corpo, já que tinha saído sem casaco e o vento de São Paulo tinha sensação térmica de 15 graus.

Pedi apenas um chocolate quente com café. Sentei-me nessas bancadas que possibilitam a gente ver o movimento do lado de fora. O ambiente estava lotado e o calor dos corpos ajudava a aquecer. Muitas conversas paralelas umas às outras. Dei o primeiro gole e fiquei olhando para o nada.

Você não acha que está na hora de começar algo novo?, murmurei alto para mim mesma.

“Acho!”, ouvi uma voz e virei abruptamente assustada para o lado. O cara de jaqueta de couro preta olhava para mim. “Sabe, acho que às vezes a gente subestima demais nosso potencial”, ele acrescentou. Seu olhar era profundo e suave. Era calmo na agitação da sala.

“É, eu também”, e pela primeira vez em muitos dias senti as coisas entrando no eixo dentro de mim. Os turbilhoes de pensamentos dissiparam. A gente se entreolhou novamente e começamos uma risada sem fim.

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